O Luís Cruz oferece-nos no «mag@nice» estórias da sua aldeia que merecem ser conhecidas em todo o Mundo. Sabemos que estamos longe de conseguir o nosso desejo mas aqui limitamo-nos a dar uma ajuda. A peça que transcrevemos é um autêntico hino à sabedoria de quem nasceu há uns bons anos:
“Rosinha é jovem há muitos anos, visto já ter passado a casa dos oitenta. Como todas as fibras de antigamente que, felizmente, ainda gozam do privilégio de fazer parte do rol dos que vão passeando pelas ruas da aldeia, e abstraindo um problema que tem num dos olhos, pode afirmar-se que está em plena forma. As suas células teimam em resistir ao envelhecimento, seja porque trabalhou de sol a sol agarrada a uma enxada, durante os seus tempos de menina e moça, amanhando a terra que a ajudou a servir de sustento, seja porque o clima e os alimentos não eram tão nocivos. Não importa o motivo que faz dela um ser dotado de mais juventude do que muitos com idade francamente inferior. Alimenta uma boa conversa, contagia com alegria e revela os mais elementares princípios de educação e respeito pelo seu semelhante. Não é pessoa de fomentar discórdias e muito menos desacatos. “Mas, que não se puxe por uma mulher do campo!, quando não é o diabo. Disto ninguém pode duvidar. Ainda há gente assim, gente que foi educada antes da era do plástico.
”Todo este arrazoado para corroborar o que adiante se descreve:
”A Rosinha foi a uma consulta de oftalmologia, a terceira, ao hospital. Confessou-me que não simpatizava com o nariz arrebitado da médica especialista das vistas, sinal de autoritarismo, segundo ela, bem como do seu ar de menina mimada e arrogante. Queixou-se-me que se sentia tratada como se fosse um ser abjecto, mais uma, e que:
”ó menino a minha vontade era dar-lhe com uma sachola e escachá-la toda, filha da puta
(tal e qual)
então queres saber que a garota foi falando, falando e a certa altura teve a desfaçatez de dizer
a senhora capacite-se que tem o olho podre
podre senhora doutora?
é verdade – podre
”Chegava a altura da Rosinha se começar a virar do avesso e passar-se para o outro lado da razão:
olhe menina, o meu olho até pode estar podre, até pode ser verdade, mas no meu entender não fica bem a uma médica dizer semelhante a um paciente, sua garota de merda
”Estava instalada a confusão.
ó menino a partir daí pensei vou presa mas enxovalho-a porque outra coisa não merece
”Apaziguados os ânimos a doutora colocou umas gotas na vista da Rosinha, para dilatar o olho, como ela disse, e pegou numa embalagem de comprimidos e disse-lhe:
a senhora leva estes comprimidos, que são oferta, e todos os dias pela manhã toma um
agradeço senhora doutora mas não quero, pode a senhora ficar com os comprimidos e todos os dias pela manhã meter um no cú para ver se faz bem ao seu olho
com licença
queres saber que já lá vão três dias e as malvadas gotas descongestionaram-me a vista de tal modo que parece que ainda vejo este mundo e o outro
será que a malvada fez alguma patifaria
Verdade ou maganice?”
Publicado por dizerbem em março 29, 2005 11:48 PM